terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Maturidade Cristã - 2011 - ED IPC

A superficialidade é um dos principais males que assolam muitas das igrejas evangélicas atualmente. O amplo mercado religioso à disposição e a multidão de ideias e filosofias concorrentes dão a impressão de que a Verdade não existe, ou que é inútil para nós, cristãos comuns, tentar pensar profundamente sobre ela. Isto é tarefa de uma “elite pensante”, da qual, obviamente, a maioria de nós não fazem parte.

Porém, não creio ser esta a visão bíblica. A Palavra de Deus frequentemente nos adverte sobre as consequências da superficialidade, a saber, a mediocridade e a instabilidade, e assim acumula imagens para nos exortar: crianças agitadas de um lado para outro por todo vento de doutrina (Ef 4:14); a palha que o vento dispersa (em contraposição à árvore enraizada junto à corrente das águas, cf. Sl 1); a casa construída sobre a areia (em oposição àquela construída sobre fundamento sólido - Mt 7:24-27); a dieta baseada em "leite espiritual" (uma vez que o alimento sólido já seria o mais adequado, cf. Hb 5:11-6:3); etc. Além disso, a Bíblia afirma enfaticamente que a maturidade em Cristo não é o privilégio de um pequeno grupo, mas está aberta a todos (ênfase que os reformadores enxergaram tão bem, conforme Cl 1:28,29) e deve ser o alvo de todos (Fp 3:14).

Infelizmente somos frequentemente mais movidos pelas novidades do que pela profundidade, pela variedade e não pela densidade. E esta atração pelo novo gera uma contínua distração do essencial. A jornada a que nos propomos neste ano é a de refletir em grupo sobre nosso progresso como cristãos revendo a profundidade de nosso relacionamento com o Cristo autêntico, conforme nos apresentam as escrituras.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Abra seus olhos! (Ef 1:15-22)

Introdução

Apesar de dar graças a Deus pela fé e amor dos efésios (v. 15-16), Paulo não se dá por satisfeito e ora por eles. O que o apóstolo pede pode ser resumido pela expressão: "que saibam..." (ou "para saberdes..." - 18) -- este é o foco da sua oração.

Paulo não pede uma segunda bênção, ou outra bênção complementar, mas que "conheçam" ou entendam mais plenamente as implicações da grandeza das bênçãos que já receberam estando em Cristo (1:3). Crescimento em conhecimento é indispensável para o crescimento em santidade.

Um dos maiores problemas da vida cristã é termos uma visão limitada, em "embaçamento" quando se trata de ver com os olhos do coração. Quando não enxergamos bem com nossos olhos espirituais, nossas vidas, nossas prioridades, nossas decisões, nossos sonhos, nossa esperança e nossos relacionamentos estarão fundamentados em solo arenoso, instável.

Supondo que Deus abra os nossos olhos interiores, o que veremos? O restante do texto nos diz.

O que veremos?


1) a esperança do seu chamamento (18a);
2) as riquezas da gloriosa herança (18b);
3) a suprema grandeza de seu poder para com nós os que cremos (19).

O Chamado de Deus

Diz respeito ao início de nossa vida cristã quando Deus nos chamou (Rm 8:30). Mas para que Deus nos chamou?

  • para pertencer a Cristo (Rm 1:6);
  • para comunhão com Cristo (1 Co 1:9);
  • para sermos santos (1 Co 1:2; Rm 1:7);
  • para a liberdade (Gl 5:13);
  • para a paz ("harmonia") (Cl 3:15);
  • para a glória (1 Pe 5:10);
  • para o sofrimento sem retaliação (1 Pe 2:20-21).
Tudo isto estava na mente de Deus quando nos chamou e constitui a "esperança do nosso chamamento".

A Herança de Deus


Diz respeito ao fim da nossa vida cristã. Se somos filhos, somos também herdeiros e um dia, pela sua graça, esta herança será nossa (Rm 8:17).

Esta herança (por mais difícil que seja imaginá-la) inclui semelhança com Cristo (1 Jo 3:2,3) e comunhão perfeita uns com os outros, pois nossa herança é "nos santos" (18b).

Paulo então ora para que os nossos olhos sejam abertos para vermos esta herança, e a glória desta herança, e a riqueza da glória desta herança.

O Poder de Deus


Diz respeito ao presente de nossa caminhada cristã. Deus deu demonstração objetiva da grandeza de seu poder PARA CONOSCO:
  1. a ressurreição de Cristo (vitória sobre a morte)
  2. a exaltação de Cristo (acima de todos os concorrentes, dos principados e potestades deste mundo tenebroso).

Estes são dois poderes que não podemos controlar: a morte (pois somos mortais) e o mal (pois somos pecadores). Mas Deus, em Cristo, venceu a ambos: conversão = passar da morte para a vida (2:1,5); santificação = vitória sobre o mal.

Todo cristão dever experimentar de forma crescente em sua vida esta vitória sobre o mal que Deus colocou sob os nossos pés, em Cristo.

Conclusão


Paulo une o que nós, cristãos modernos, temos a tendência de separar:

Iluminação Divina e Pensamento


Como teremos os nossos olhos abertos? Pela iluminação do Espírito (v. 17), mas também pela meditação na Palavra de Deus, pois Paulo ora por iluminação e ensina ao mesmo tempo que Deus já deu provas do seu poder na ressurreição e exaltação de Cristo.

É o mesmo conselho que dá ao jovem timóteo: 2 Tm 2:7.

Conhecimento e Fé


A fé vai além da razão, mas se baseia em conhecimento. O conhecimento é a escada que faz com que a fé suba mais alto.

No v. 19 ora para que conhecemos a grandeza do seu poder "para com os que cremos". Esta união dos verbos "conhecer" e "crer" é muito importante.

A fé bíblica é aquela que nos faz receber as coisas que compreendemos.

sábado, 24 de abril de 2010

Toda Bênção (Ef 1:3-14)

Facilmente nos esquecemos das bênçãos que já temos em Cristo, ou as achamos insuficientes. Mas no verso 3 do capítulo 1 de Efésios, Paulo bendiz a Deus Pai por ter nos abençoado em Cristo com toda sorte de bênção espiritiual.

Você sabia que ser cristão é uma bênção? Que se você não é cristão está perdendo uma enorme bênção? Talvez olhando para alguns cristãos não poderíamos dizer que ser cristão é uma bênção...

É difícil não perceber a menção da Trindade já neste versículo:
  • A origem da bênção: Deus Pai, sujeito da frase, a fonte e origem de toda bênção que desfrutamos.
  • A esfera da bênção: Cristo é a esfera na qual as bênçãos divinas são recebidas. Estávamos em Adão, mas agora estamos em Cristo. Antes sob a condenação de Deus, mas agora sob a sua graça (i.e. favor imerecido).
  • A natureza da bênção: "espiritual" (i.e. "do Espírito"). Não bênçãos materiais como a maioria das bênção do AT (e.g. Dt 2:1-14), mas espirituais (a lei de Deus em nossos corações, conhecimento pessoal de Deus, perdão e.g. Jr 31:31-34); não na terra, mas nas "regiões celestiais" (i.e. o mundo da realidade espiritual).
Deus Pai nos abençoou em Cristo com toda bênção do Espírito. Nenhuma bênção nos foi negada se estamos em Cristo. Devemos, é claro, crescer em maturidade e conhecimento em Cristo, temos que explorar mais plenamente as riquezas da nossa herança nele, mas já agora, se estamos em Cristo, todas as bênçãos espirituais são nossas por direito (ver tb. Cl 2:10).

Que bênçãos são estas? O restante da passagem nos diz:

  1. Passado ("antes da fundação do mundo" - v. 4): ELEIÇÃO
  2. Presente ("temos" - v. 7): ADOÇÃO
  3. Futuro ("na dispensação da plenitude dos tempos" - v. 10): UNIFICAÇÃO

Antes do mundo existir Deus tomou uma decisão envolvendo a nós (seus filhos adotivos) e a Cristo (seu filho unigênito): "nos escolheu NELE". Deus decidiu fazer de nós que ainda não existíamos seus filhos e filhas, seu povo, por meio da obra de reconciliação de Cristo. E Ele o fez de acordo com o "bom propósito de sua vontade" (v. 5b) e não porque merecíamos. Ele o fez a fim de nos tornar "santos e irrepreensíveis".

Ninguém acha a doutrina da eleição fácil de entender. "Não fui eu quem escolhi entregar minha vida a Cristo?", podemos perguntar. "Sim!", a Bíblia responde, "E o fez livremente. Mas somente porque Deus na eternidade o havia escolhido.

Três verdades importantes a respeito da doutrina da eleição:
  1. A doutrina da eleição é uma revelação divina e não uma especulação humana. Não foi inventada por Calvino ou Santo Agostinho. É uma doutrina bíblica e se quisermos ser cristãos bíblicos não podemos fugir dela. No AT Deus escolheu um povo (Israel) e no NT Deus escolhe uma comunidade internacional, a Igreja, para ser o seu povo. 
  2. A doutrina da eleição é um incentivo à santidade, e não uma desculpa para pecar. É verdade, ela traz grande segurança: Aquele que nos escolheu nos guardará até o fim. Mas o v. 4 nos diz que o propósito da eleição é "para que sejamos santos e irrepreensíveis (i.e. 'sem manchas') em sua presença". 
  3. A doutrina da eleição é um estímulo à humildade e não um motivo de orgulho. O mérito não está em nós, mas na escolha soberana de Deus.

O propósito da eleição é que, no tempo e na história, nos tornássemos seus filhos e filhas. Isto traz privilégios e responsabilidades:

1) Privilégios: perdão, acesso a Deus (v.7,8). Lavados, perdoados, reconciliados, curados, restaurados.

2) Responsabilidades: afirmação paralela: "nos escolheu para sermos santos e irrepreensíveis". É inconcebível que desfrutemos de um relacionamento com Deus como filhos sem aceitar a obrigação de imitar o nosso Pai e cultivar a semelhança familiar.

Atualmente há discórdia no universo, mas haverá um tempo em que esta discórdia cessará e "todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus é Senhor" (Fp 2). Deus nos preparou um futuro.

Esta convergência em Cristo de todas as coisas certamente não inclui universalismo (todos, inclusive demônios, salvos), pois muitos outras passagens bíblicas nos falam da terrível realidade do inferno. Mas a igreja na terra e no céu, e toda a natureza regenerada sob a liderança de Cristo.

A História humana não é uma secessão aleatória de eventos, mas está se digirindo para um futuro glorioso conduzido pelo Senhor da História.

APLICAÇÃO

1) Precisamos de uma visão mais ampla

Paulo, embora o seu corpo estivesse confinado (prisão domiciliar em Roma), sua mente e seu coração habitavam a eternidade. Ele olhava para trás para antes da fundação do mundo (v. 4) e para frente, para a "plenitude dos tempos" (v. 7) e se apropriava do que tinha no presente (v. 4) à luz destas duas eternidades.

Quão curta é a nossa visão se comparada à de Paulo! Quão fúteis os nossos medos e quão mesquinhas as nossas preocupações! Precisamos de uma visão mais ampla!

2) Precisamos de uma maior centralidade de Cristo

A expressão "em Cristo" (ou "nele" ou "no Amado") aparece 11 vezes neste trecho. Cristo habitava de tal forma a mente de Paulo que ele se via obrigado a mencioná-lo em praticamente todas as frases que escreve.

Não há nada mais importante do que estar em Cristo, do que crescer em maturidade em Cristo. Não deixe nada te distrair de Jesus. É somente nele que as bênçãos espirituais são encontradas.

3) Precisamos de uma adoração mais profunda

Paulo nunca via doutrina como um fim em si mesmo. Para ele, às vezes doutrina levava à prática. Mas aqui, doutrina leva a doxologia

Se compartilharmos da visão de Paulo, compartilharemos também de seu espírito de adoração.


Somos povo de propriedade do Senhor. Tudo começa em sua vontade e termina em sua glória.

Este é o teste: O que é mais importante para mim? A minha vontade ou a vontade de Deus? A minha glória ou a glória de Deus?